quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A independência

Sete de setembro.
Naquela época significava muito mais que um feriado. Significava um dia cheio de carinho, sexo, e muita preguiça. Significava que ela dormiria na casa dele, e que beberiam vinho barato madrugada a fora, talvez jogassem truco e suas gargalhadas encheriam a sala, o quintal, o mundo todo! Da mais pura alegria.
Talvez, mas apenas talvez, aquela tenha sido a única fase plena da vida dela, sem fios soltos, sem lágrimas internas. A fase do esquecimento de tudo que era miserável, que era doloroso... E, tola, pensou que poderia prolongar aquele riso para o resto da vida...
Não saberia dizer quando tudo começou a desmoronar, não se lembrava da primeira grosseria, que com o tempo, veio a se tornar rotina, não se lembrava do primeiro palavrão.
Veio antes ou depois do primeiro filho?
Não saberia  dizer quando foi que lágrimas se tornaram frequentes e que, talvez por isso, passaram a ser apenas lágrimas, sem qualquer relevância. Ela não saberia dizer...
Um dia apenas acordou em um lugar estranho e ele estava lá, não ao seu lado, mas lá, entretido em uma empresa qualquer, curvado em frente ao computador, estava diferente, seu rosto, antes  tímido, de um anjo que ela carinhosamente chamava de seu, agora era apenas um rosto como outro qualquer, severo, duro, inflexível, nada havia sobrado do belo sorriso cativante. Ela esboçou um bom dia que ele respondeu no mesmo tom modorrento de sempre, entre dentes, de boca fechada. Ela não sabia como nem porque, mas deveria ir para cozinha antes de  qualquer coisa, e cuidar do que havia por lá, não se lembrava o motivo, mas tinha que fazê-lo, antes que o fizesse porém, um choro de criança a chamou de volta. De volta à realidade, era a sua criança, sua... Sua, apenas. Como um bebê inseminado, decantado, adotado... Retirado à força e sem porque do útero materno. Ela levou as mãos à barriga e recordou-se dos movimentos, das cantigas, e de toda dor que a prendia àquele lugar. Ele levantou em passos lentos, fez um copo de 500 ml de achocolatado, semi nu e desgrenhado voltou a se entreter com uma futilidade qualquer.
Então, observando-o, ela soube.
Soube, não pelos seus gestos, mas pela total falta deles, que o que quer que havia acontecido em um setembro longínquo, o que quer que os havia colocado naquela casa e com aquela criança no berço, o que quer que fosse, há muito havia acabado. Ela sentiu uma dor lancinante, sentiu saudade, sentiu raiva, sentiu vontade de fugir, mas quando olhou bem para aquela cozinha, percebeu que estava longe, muito longe de casa e que não tinha absolutamente nenhum lugar para aonde fugir com uma criança nos braços. Ela passou novamente por ele que nem deu conta do fato, pegou um balde de roupas, limpas? E a pretexto de colocá-las no varal subiu a escada.
Lá, sentada sobre um fogão à lenha velho, e com os olhos presos em um muro de tijolos vermelhos, soluçou como se o mundo fosse acabar e implorou para que alguém viesse em seu socorro, antes que fosse tarde... Ninguém veio.
Catarina, ouvindo o choro da criança no andar de baixo, lançou-se de cabeça em direção ao som, mas azarada como era, não morreu de todo...


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Limo

Eu consigo ver rostos felizes no limo do muro.
Dragões, automóveis, e até um cachorrinho. O João Pedro foi quem viu o cachorrinho primeiro, depois juntos, descobrimos tudo isso e muito mais.

O tapete verde escuro, formado pela umidade, é macio e serve como pasto ao cavalinho vermelho, e também como campo de futebol, ou de concentração aos soldadinhos azuis, íamos colocar a pequena cerca de arame farpado ao redor, mas achamos que poderia caracterizar invasão de terra, apropriação inadequada, deixamos os soldados azuis livres com suas baionetas em punho.

Vamos criar um oásis? 
A palmeira laranja não para em pé, apoiamos com pedrinhas. É inútil não tem raízes, vai morrer. A água do cocho é infinita, feita com plástico azul e amanhã depois da chuva de ilusão, vamos plantar um feijãozinho mágico, que foi trocado por dinheiro, em embalagem vazia de petít suísse para acabar com a fome mundial.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Uma cena



 Da vida comumente mágica que levo ao seu ladinho, meu xamego, meu nirvaninha...

 Embora seu amor desinteressado esteja indo embora, eu te amo tanto que até dói.

-Mamãe, ocê, ocê, ocê, ocê  me ama?
-Sim, meu amor.
-Muitão gandão?
-Muito, muito, muito, bem grande do tamanho do céu.
-Do céu não, mamãe, tá escúio, tamanho da, da, da... Da panhede, do teto. E uma mãozinha gordinha, com  o mindinho torto, por puro capricho da genética, se levanta.
-Tudo bem então, filho, te amo do tamanho da parede e do teto.
-Ocê faz mamadeia chocoiate e mucilon, pa Dudú?
-Faço, meu amor.
Uma mãe preguiçosa que levanta às duas da manhã, seguida de um par de perninhas gordinhas com uma pinta preta na coxa direita, também, por puro capricho da genética.

Materna II



Estranho é gostar tanto do seu all star azul... Não, estranho, é gostar tanto dos seus pés descalços, enlameados, denunciantes da infância plena, dos seus quase três aninhos...








Estranho, é chegar no sítio em Pedro de Toledo, e te esquecer em rodas de pessoas, em andanças pela chuva, em pinturas abstratas no chão da varanda... Estranho é gostar tanto das suas artes, do talco espalhado pelo chão da sala, dos riscos e rabiscos na parede do corredor.


Estranho, é marcar sua altura na parede e olhar para ela como se fosse uma extensão do seu corpinho quando você não está aqui, mas sim em um lugar distante aproveitando ao máximo o fato de ter bisavós, tias-avós, primas-tias, primas somente, de primeiro, de segundo... de quarto grau, todos dispostos a se encantar com sua visão de mundo, que é seu, que é meu, e que está marcado na parede aqui ao meu lado. 

Uma altura, uma data, uma extensão de você. Estranho é buscar canais e, automaticamente, parar no Quintal da Cultura e, ainda que de forma inconsciente, cantarolar a música tema da Dora. Estranho é cheirar sua camisetinha caída atrás do sofá e sorrir com saudades ao constatar um cheirinho meio doce, meio azedo, de criança suada, e suja de suco de manga. Estranho é não gostar tanto deste silêncio, desta paz forçada que é a distância do meu baterista preferido...

Amor, mamãe está com saudades, quando você voltar, vamos deitar no sofá e conversar coisas espetaculares, vamos inventar histórias e cantar o tema de abertura de Dora, vamos desenhar paredes e portas e brincar de esconde-esconde, vamos apagar a luz pegar uma lanterna e brincar com a sombra até adormecer...

Volta logo meu guri, antes que este silêncio tome conta da minha alma.

Uma poesia

Uma nota
musical
de saudade
com cobertura de terra e de capim
com pé de ameixa do mato
uma nota
um nove sempre não estudado
antes
muito antes
uma nota
um seis
sempre em matemática
uma nota
licorosa
barata
amarga de cerveja
verde como a bílis
emulsificante
uma nota
um 5,30
lágrimas, não por tudo
por nada, disponha e vá-te
aparta daqui está tristeza.
Ei ainda me lembro o que é Ágar...

Materna

Minhas mãos estão calejadas, e é de ficar pendurada feito uma macaquinha em transporte público. Pensei em escrever uma crônica sobre isso, mas vou deixar para outro dia... 
Minhas costas estão cansadas, de dormir no chão há mais de um ano, também já pensei em escrever um conto sobre isso,mas novamente deixarei para outro dia.

Os meus pés estão esfolados, ardentes dentro do sapato, pensei em escrever... Mas pelo menos o meu sapato é bonito.

minha cabeça está doendo, com o balanço do ônibus, as perguntas incessantes, os pedidos, gritos insistentes, enquanto tento concluir um trabalho, três livros e começar um relatório de... Bem mais de 25 páginas. Pensei em escrever um desabafo, mas vou deixar. Vou deixar. Vou deixar para outro dia.
Minha alma está doendo, de cansaço e de abandono, pensei em escrever um poema, poético como ela anda, mas vou deixar para outro dia.
Se não fosse meu coração forte, cheio de amor por seus olhinhos, eu não teria esta capacidade, adquirida ao longo de três anos duros e mágicos, de deixar o meu corpo, fugir de mim mesma e ainda dar bom dia. Pensei em escrever uma declaração para você, mas vou deixar para outro dia, porque agora pitico, agora eu vou brincar de esconde-esconde para esquecer as dores desta vida.

Etérea


Eu falo brincando, suspiro alto, brinco de sonhar, finjo e acabo sonhando. Eu me reafirmo e não tenho dúvidas. Eu reinvento o mundo e as condições. Coloco cor na cena; vermelho, é claro. Eu ligo pontos e não vejo sentido e de meu, não sinto nada, absolutamente nada em meu pensamento. Eu ouço músicas que contam outras histórias, e finjo minhas as que acaso são suas. Eu, no fundo, sou careta, insinuando-me sutilmente em uma dança erótica, me desfaço de pré-conceitos e não concebo nada de novo, de fato. Eu me denuncio na escrita, em versos e prosas me desfaço. Levanto bandeiras e manuseio baionetas, mas novo, no fundo, não concebo nada.

Brinco de ser mulher adulta, experiente e muito sabida, pretensa, sou no fundo acrílica e se me aquece eu me estrago, mas ainda não entendi direito, de onde vem toda esta ânsia de de repente não querer ser mais nada, nada além de uma tela restaurada, e quando a vejo, estática, não sei ao certo apesar do nada, etérea eu ainda tremo. Idiotizada.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Uma carta: duas palavras e um nome

Ela observa o caderno em suas mãos, por um instante pensa em desistir. Escrever o quê? Há tanto tempo não faz isso, há tanto tempo... Seria capaz? Arrisca-se em uma caligrafia instável e confusa, duas palavras. Meu querido, ponto. Como continuar? Do quarto chega o som de um violão desafinado e uma voz totalmente contrária, So... so you think you can tell, haven from hell... Blue skies from pain... Mais um dia, em que pessoas morreram e outras tantas nasceram, mais um dia em que alguém chorou, não, isso nada tem a ver contigo, se bem que a canção, é tão triste e é tão você. Um nome, meu querido... as desculpas pela rispidez, pelo jeito meio indiferente, meio arrogante, e umas palavras que sobem e não saem, umas palavras tão cândidas, uma descrição de todo sentimento que lhe vai na alma, em branco. três palavras, my dear e um nome, as mãos trêmulas a entornar mais um copo de tequila, o líquido a escorrer-lhe pelo queixo, esvaída de toda inspiração, drenada de toda manifestação de sentimento, justo ela que já sentiu tudo, que já gostou de sentir de tudo, as portas... The doors, todas as percepções atenuadas pela tequila, ela já sentiu o sangue subir as faces, escorrer pelo braço, ela já sentiu o hálito e o toque de um fantasma de um personagem, ela sentiu tudo e agora incapaz de escrever uma carta, uma desculpa por toda a rispidez, pensa em pergaminhos e pena de ganso, pensa na dificuldade relacionada a esta ação em tempos passados, pensa em todo o cinza envolvido no passado, no cheiro da solidão, no cheiro da pretensão, And did they get you to trade your heroes for ghosts... O tom da música havia subido de um suspiro triste e melancólico, para uma agonia gritante. E ela continuava a segurar o caderno, não em branco, meu querido e um nome... 

Senescência

estou ficando velha, os sulcos de preocupação entre minhas sobrancelhas se tornam cada dia mais evidentes. A marca do sorriso no canto dos lábios já não me deixa, ora sutil, ora sarcástica,sempre ali. Minhas olheiras já não são por conta de noitadas, e sinto, cada dia mais necessidade de um tempo em silêncio, só para mim e para minha ideias. Repudio a música nova, acho- a agressiva, não de uma agressividade poética e denunciante, ela simplesmente agride meus ouvidos. Repudio os bares novos, o futebol novo, e acima de tudo as boates, com homens e mulheres-objetos sem nenhum objetivo na vida a não ser rebolar feito cobras-mal matadas. Eu rebolava assim? deste jeito despreocupado e enjoativo? Será por isso que meus irmão que já sentiam as olheiras definitivas, os primeiros traçados de prata sobre a cabeça, me repudiavam? Não me lembro de descer até o chão com um estranho atrás na coreografia do acasalamento. Não com um estranho, não em uma boate, não com música psicodélica, não, não me lembro, não rebolei... Porquê não fazem simples bailinhos, de máscaras, de fantasias, de fins de mundo, de pijamas?
As pessoas novas também me cansam, assim como os velhos, carregam em si a mesma superficialidade, os mesmos preconceitos, egoísmos, narcisismos, sexualismos, todos os ismos de falsos puritanos. É inegável, estou envelhecendo, rápido demais, por fora e por dentro, meu retrato se deteriora, talvez seja tempo de pensar em parar de beber, em deixar o sangue circular livre e puro, talvez seja tempo de pensar em exílio, em auto-exílio para refletir melhor sobre auto-indulgência.

terça-feira, 10 de abril de 2012

uma vida apenas

Eu só comi no mcDonald’s uma única vez, em setembro do ano passado por insistência de uma amiga que ama pagar caro por um pão sem graça com pepino, carne e queijo. Na verdade, não me decepcionei, atendeu completamente a minha falta de expectativas.  Meus caros, eu sou um bicho do mato, eu demorei quase 20 anos para entrar em um elevador, só aderi à internet há pouco mais de 3 anos, os 'tiozinhos' que se arriscam nas avenidas puxando carrocinhas com papelão  quase me fazem chorar, e eu nunca deixei de dar dinheiro a pedintes, mesmo sabendo que, possivelmente, gastarão com bebida, crack, etc. Até porque, viver nas ruas e não se drogar para prolongar uma vida de sofrimento, é algo meio estranho, não acham? Somente em estado contínuo de torpor para suportar a vida dura das ruas,que nós internautas estamos muito, mas muito longe de compreendermos.
Eu uso o celular simplesmente para fazer e receber ligação, e só vim a adquirir um, também com quase 20 anos de idade, e acreditem! Nunca me fez falta. Não sei a diferença entre ipod, iphone e smartphone, quantos fones, Jesus! E depois do mp4, todos para mim são a mesma coisa.
Eu, enquanto morei com minha mãe, tive em casa uma tv de caixa de madeira em preto e branco que, pasmem! Ainda funciona. Eu nunca ganhei uma barbie, ah sim! mas tive um Atari que meu irmão resgatou do lixo e consertou, e nós ficávamos até tarde jogando aqueles joguinhos bestas na super tv antiga de minha mãe. Eu fiz diários, dezenas deles, eu escrevi mais sobre ódio durante minha adolescência do que sobre amor. Eu jamais me apaixonei por bad boys, jamais me apaixonei por pessoas potencialmente e consensualmente bonitas. Eu odiei meus pais, odiei meus irmãos, odiei amigos, odiei gatinhos.
Depois passou.
Eu fugi para beber escondido aos 13 anos de idade e minha mãe cuidou de mim como jamais alguém vai cuidar, depois me deixou de castigo por tempo indeterminado. Eu também fugi para fumar e minha mãe jamais soube disso, ou fingiu que não sabia, ou  o aroma do amor materno cobriu o cheiro do cigarro em meus cabelos. Eu já desejei ser 100% branca para poder me tornar ruiva. Já odiei ser filha de pai branco por me envergonhar frequentemente dele. Eu já quis dominar o mundo, de brincadeira, de verdade. Depois eu quis destruir, de brincadeira, de verdade. E depois ainda quis salvá-lo, inclusive aos gatinhos que antes eu odiava, quis, mas não salvei, foram todos abandonados juntamente com a mãe em uma estrada de terra qualquer, bem longe de casa.
Já fizeram com que eu me sentisse linda, já fizeram com que eu me sentisse horrorosa, mas eu me fiz totalmente horrorosa sozinha, quase que a vida toda. Quase, porque eu descobri que o poder da sedução vai muito além do que se tem por fora, e além do mais, homens são simples, são fáceis, muito fáceis. Eu já fui católica, briguei. Já fui muitas vezes evangélica, briguei. Já quis ser uma criatura mágica, um elfo, um demônio, ha ha! Não deu.
Eu fui má.
Má filha, má namorada, má irmã. Eu me enchi de lama e achei lindo, fantasiei minha maldade, ser má era demais, era atraente! Não, não era, tive consequências desastrosas, perdi pessoas, pessoinhas na verdade, éramos crianças ainda, virgens, tolos, sabendo tudo apenas sobre nossos umbiguinhos mal- lavados. Éramos pateticamente cruéis devolvendo ao mundo toda suposta crueldade que ele nos dava.
Eu fiz um milhão de coisas, fui a um milhão de lugares, menos ao McDoanld's, como já disse, eu rodopiei no escuro, eu me cortei várias, várias, várias vezes, sem sentir dor. Ah eu também nunca fui ao playcenter, nem ao Hopi hari, nunca andei de montanha russa, nem alemã, nem gaulesa, nem de país nenhum, mas eu, com dezoito anos, menos perturbada, mais educada, mas não muito obediente, já havia lido quase 200 livros, que fizeram de mim uma pessoa melhor, um pouco mais parecida com o que sou agora, que destronaram meus pais e a virgem Maria, tiraram deles a verdade absoluta sobre as coisas do mundo, me deram o mundo, mas eu já não o quis só para mim, nem para salvar, nem para destruir, pois eu estava aprendendo que a vida vai muito além dos seus lindos olhos brilhantes, muito além do seu carro super caro, ou nem tão caro assim, comprado em suaves e infinitas prestações, me ensinaram que o quintal de terra vermelha batida poderia ser um paraíso, e que, sim, cedo ou tarde eu teria que torcer o braço à internet, ou não teria mais ninguém com quem falar.
Uma hora nós temos que sair, não é? Temos que dar o passo seguinte, deixar umas coisinhas de lado, um orgulhinho da terra, uns livrinhos bem escrito, esquecer, ou nunca aprender o nome do vizinho, deixar o sexo com o companheiro ou companheira de lado, não é? Temos que fazer o pedido, e ainda que indignados com o sabor e o preço a se pagar por algo tão sem graça, temos de mastigar, e engolir, porque o mundo não é seu quarto, não é seu canto, aonde você rodopia no escuro, aonde você se entrega a uma maldade afetada e patética. O mundo é um lugar de experimentação, de sabores, de sensações aonde cada uma deve te conduzir a algo novo e melhor, seja o gosto amargo ou ácido, seja doce. E também, não dá para ser um bicho do mato quando já nem há mais mato para se divertir...
Comam no McDonald's, passeiem de elevador, eu não gosto de me fechar em caixas metálicas quando meu destino está a dois lances de escada, e nem de uma mistura suspeita pretensiosamente chamada de hambúrguer na hora do almoço, mas vou levando devagarzinho, para não ficar à margem deste mundo louco, cruel, e abrasivo que nem todos veem.
                                                             
                                                                                                            

segunda-feira, 26 de março de 2012

Uma carta de des-amor

E quando se dão conta, já está tudo quebrado, e por mais que façam por consertar, porque fazem, tudo ainda continua torto, desgastado, hemorrágico. Então caminham ao redor um do outro, perto o suficiente para não perder nenhum detalhe que, talvez tenha passado despercebido em tempos passados, perto o suficiente para observar se os olhos chovem ou se fazem sol, mas distante o bastante para não se esbarrarem pelos corredores, sentam-se no mesmo sofá e comem na mesma mesa, dormem no mesmo quarto e se tocam individualmente com estas mãos que, já foram para o outro, se tocam, mas não se sentem... Não se percebem, nem ao menos um sibilar no escuro, um gemido, um suspiro... Porque já não estão mais ali, não há ninguém, não há nada, estão perdidos em algum lugar do passado, enroscando-se em muros adormecidos, suspirando em miseráveis casebres sem portas e sem janelas, tingidos à cal. Estão perdidos em rodas barulhentas de jogos e álcool, em um limiar etílico e egoísta entre a felicidade plena e o volúvel prazer com o suor. Estão apenas em seus quartos, silenciosos, juntos e sozinhos, descobrindo o sentido pleno da palavra desespero. E o medo que os assola é o medo escarlate, da vergonha, da mentira, da sedução... O medo de que esta hemorragia não pare, esta hemorragia universal, este rio de pés sangrentos que carregam tanta imundície e tanta história, medo de uns calcanhares repletos de cacos, da cerveja vazia, do champanhe vazio, da tequila vazia, da vodka meio cheia, medo de alguns anos fraturados. 

Medo de umas queimaduras pelo cigarro nunca compartilhado, medo real, medo ao estilo de Kafka, que foge as raias da lucidez, um medo desvairado... No limiar de casebres miseráveis e apartamentos preenchidos ao som do mar, no limiar de incensos e luzes de vela em um dia de semana qualquer. Medo de não gostar dos filmes mudos em preto e branco que ela tanto ama ou de não acompanhar com o devido interesse o livro surreal, psicodélico e parcialmente político.


O medo de não disfarçar o desagrado com as séries de tv que ele assiste por horas a fio, de não acompanhar com o devido interesse suas pretensões futuras em seu grupo social fechado. O medo do desconhecido, daquilo tudo que não sabiam , que nunca se deram conta. Como? Porquê?
O medo das perguntas mais ingênuas, e das respostas mais, brilhantes, maldosas, maliciosas... Este medo que foi trancado por tempos, esquecido no porão, de repente em um sábado qualquer, toma de assalto todos os gestos tímidos e desesperados, gestos perdidos, gestos impulsivos e biológicos, uma necessidade de suar, de sangrar, de sussurrar no escuro uma palavra qualquer diferente de amor, uma palavra que os leve a um ponto novo, a um ponto inédito, inabitável, virgem. Um casebre miserável qualquer, sem portas nem janelas, preenchidos com a luz do luar ou do sol, testemunhas de olhos chuvosos... testemunhas de parceiros nus, solitariamente entrelaçados, à margem da vida comum.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Brumosa

Foram para casa de mãos dadas. 
Em silêncio... 
Tudo lhe dizia que estava errado. 
Em frente ao portão soltou a mão dele e o olhou de frente: Bem, é isso, boa noite. Mas ao tentar se virar, sentiu uma mão a puxar com força, quase que com desespero forçando-a a se virar... Em uma fração de segundos, seus lábios se uniram, sôfregos, intensos, mas logo alguma coisa aconteceu, começaram a flutuar, depois foram desaparecendo devagarinho como a névoa tocada pelo sol, mas a escuridão foi se adensando ao invés de rarear, ela se viu em um quarto, em uma cama, e beijava compulsivamente outros lábios, a intensidade do desejo no entanto era a mesma, depois de mais um beijo longo, excitante, ele a forçou para baixo e a vontade de colocar as mãos, os lábios naquele corpo só aumentou, foi descendo pelo abdome, passou pelo umbigo e na altura do baixo ventre começou a chorar...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Momento


Olho para minha sala... Um colchão de casal no chão com alguns bichos de pelúcia, uma revista de assuntos fúteis e uma criança de 2 anos adormecida, ao lado, também no chão, uma lata vazia de cerveja que caiu há uns 10 minutos e, não, eu não corri para pegar, há um par de sandálias femininas marrom, um parzinho de sandalinhas infantis também marrom mas com duas tirinhas azuis e há o lugar vazio onde, há 20 minutos, havia um chinelo masculino tamanho 39, pretos, que foram calçados e estão, neste momento, no mercado a procura de leite para a criança que dorme no colchão, mas que acordará em breve e se o leite não estiver aqui o condomínio inteiro conhecerá a força de seus pulmões jovens e potentes... O telefone está tocando... Não é ninguém...Volto para este texto, texto? Do que falava mesmo? Ah sim de minha sala bagunçada, mas já não lembro o objetivo, sempre escrevo com um objetivo. Um amigo me chama no bate papo, como sempre quando estou de saída, mas para falar a verdade, sempre que entro estou de saída, estou sempre de saída para alguma coisa fabulosa alguma coisa mágica, como ir ao mercado, por exemplo, ou preparar o almoço, ou, como hoje, assistir a segunda parte de "Os pilares da terra", antes que passe das dez, porque a lei de silêncio do prédio diz que a tv tem que estar baixa após às dez, e sem ouvir direito não tem graça. Sempre estou de saída e sempre continuo, atraso, perco o primeiro capítulo. Ainda bem que não vejo novela... Ah, o objetivo foi esquecido, não sei porque descrever a bagunça da minha sala, que nem é tanta, algumas coisas fora do lugar, uma lata que jogarei no lixo, separada dos demais para me enganar, não há coleta seletiva, vão misturar tudo mesmo, mas separar faz com que eu me sinta bem, oras! Que porcaria... Deixe estar, deixe para lá, é só um belo dia em que acordei na minha casa, ouvi o barulho do mar respirei a brisa salgada e úmida e escrevi sobre coisas bestas dessa minha vida besta onde estou sempre de saída...Ah e o objetivo, a constatação de liberdade que só um lugar que você pode chamar de casa te dá, e acreditem, é a primeira vez que que me sinto tão livre para não arrumar, deixar para depois, não pirar com uma lata vazia caída no chão, ou com um colchão de casal fora da cama, fora do quarto, perfeitamente colocado onde devia estar... Ah agora deixe-me dizer um oi a quem tem se mostrado tão bom amigo e me preparar para minha sessão de filmes... Boa noite adoráveis estranhos, boa noite família.