Desço as escadas com um sentimento de incerteza, no segundo andar, paro. Grafite por todos os lados, um visual de colégio público. Na parede lateral um grafite do Chê Guevara, e um do Mandela. Armários, também grafitados, abertos...Papel e isopor por todos os lados. Tão diferente do meu campus imaculado.Será que acontecera alguma coisa enquanto eu fazia a prova? Durante as trovoadas de 25 minutos? Quase ninguém a vista.
Continuo descendo, apresento meu cartão na saída, e chego à rua. Clima úmido e quente de verão, há dois minutos raios violentos riscavam o céu e agora uma lua tímida se insinuava entre nuvens, entre músicas e um sentir incessante, perturbador...Aqui, dentro do meu peito
Como arroz e feijão, é feita de grão em grão nossa felicidade...Com a música "pratododia" do teatro mágico na cabeça, pego o 02 a caminho de casa.Sento nas poltronas da frente, para segurar lugar para um amigo idoso que seja. Antes de chegar à praia o ônibus já lotou, meu amigo idoso chega e eu levanto, ao menos esse não vai em pé. Descubro que se chama João. João um belo nome, o mais lindo dos nomes, por motivos puramente sentimentais. Entre uma palavra e outra ele reclama da morte da esposa, olhos marejados, não consegue me falar o nome dela, mas em minha cabeça seu nome é Ana, porque assim o imaginei chamando-a em tempos felizes e longinquos: Ana, falta um botão em minha camisa. E ela sorridente, dizia já ter consertado.
O ônibus enche rápido e preciso me mover para o fundo, deixando meu novo amigo João com a dor de sua perda sozinho, sentado com um estranho de pouco mais de 20 anos ao seu lado.
Me espremo até o fundo e me acomodo de fronte à saída. Ah, a orla da praia! Linda toda cheia de luzes brilhantes. Com a música do teatro mágico ainda na cabeça, me esqueço do campus bagunçado de arquitetura, me esqueço dos armários, do Tchê...Enfim, me esqueço. Me esqueço inclusive que já havia passado pela orla há três dias e nada havia reparado. Cerveja, vodka, sempre fazem isso, esquecer...
O ônibus para no semáforo e meus olhos de criança caipira, buscam incessantemente as luzes e gnomos dos prédios iluminados, linda, alguém diz ao meu lado, sorrio e respondo que sim, é uma linda decoração, o rapaz diz que não se trata da decoração e mê dá uma piscadela marota. Sem jeito olho para frente e me calo, durante os solavancos sinto a presença do rapaz ao meu lado, seu braço roçando o meu, não o olho mas sei que ele está com aquele sorriso.Trânsito lento ônibus quase parado, pessoas reclamando.
Ouço um barulho e vejo um carro com papai noel parado ao lado, tocando músicas natalinas e distribuindo balas, uma tristeza profunda me arrebata. Ao lado do carro do papai noel, há um senhor, originalmente idoso, originalmente barbudo, mas seu trenó não é puxado por renas e as crianças não correm para abraçá-lo. De cabeça baixa, olhando para o chão, joga todo seu peso para frente e lentamente arrasta sua carroça que, não está cheia de presentes e sim das embalagens vazias do nosso lixo. É um herdeiro escravo, fazendo seu trabalho escravo, para dar um pouco de arroz e feijão, como na música do teatro mágico, à sua família escrava. Os ombros calejados de chibata se retesam em um esforço enorme para desimpedir o trânsito, enquanto carros, comprados e pagos, em suaves e infinitas prestações buzinam freneticamente. Ele limpa o suor da testa e prossegue, de cabeça baixa, sempre, como que para mostrar à sociedade que ele sabe qual é o seu lugar.
Fodam-se as luzes, o natal, eu, você e principalmente o papai noel jovem, branco e bem alimentado que sorria forçosamente ao lado. Eu queria descer, eu queria gritar, gritar com todos, queria uma forma, um jeito de chamar atenção para aquilo tudo. Para... Quando foi? Quando foi que nos acostumamos a ver homem puxando carroça feito burro de carga?
Que merda é essa?
Ao longo do restante do trajeto, a imagem daquele senhor, negro, grisalho, me acompanhou feito um fantasma, roubando minha plenitude, me pondo no coração um gosto amargo de revolta... De impotência...