quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Impotência

Desço as escadas com um sentimento de incerteza, no segundo andar, paro. Grafite por todos os lados, um visual de colégio público. Na parede lateral um grafite do Chê Guevara, e um do Mandela. Armários, também grafitados, abertos...Papel e isopor por todos os lados. Tão diferente do meu campus imaculado.Será que acontecera alguma coisa enquanto eu fazia a prova? Durante as trovoadas de 25 minutos? Quase ninguém a vista.
Continuo descendo, apresento meu cartão na saída, e chego à rua. Clima úmido e quente de verão, há dois minutos raios violentos riscavam o céu e agora uma lua tímida se insinuava entre nuvens, entre músicas e um sentir incessante, perturbador...Aqui, dentro do meu peito
Como arroz e feijão, é feita de grão em grão nossa felicidade...Com a música "pratododia" do teatro mágico na cabeça, pego o 02 a caminho de casa.Sento nas poltronas da frente, para segurar lugar para um amigo  idoso que seja. Antes de chegar à praia o ônibus já lotou, meu amigo idoso chega e eu levanto, ao menos esse não vai em pé. Descubro que se chama João. João um belo nome, o mais lindo dos nomes, por motivos puramente sentimentais. Entre uma palavra e outra ele reclama da morte da esposa, olhos marejados, não consegue me falar o nome dela, mas em minha cabeça seu nome é Ana, porque assim o imaginei chamando-a em tempos felizes e longinquos: Ana, falta um botão em minha camisa. E ela sorridente, dizia já ter consertado.
O ônibus enche rápido e preciso me mover para o fundo, deixando meu novo amigo João com a dor de  sua perda sozinho, sentado com um estranho de pouco mais de 20 anos ao seu lado.
Me espremo até o fundo e me acomodo de fronte à saída. Ah, a orla da praia! Linda toda cheia de luzes brilhantes. Com a música do teatro mágico ainda na cabeça, me esqueço do campus bagunçado de arquitetura, me esqueço dos armários, do Tchê...Enfim, me esqueço. Me esqueço inclusive que já havia passado pela orla há três dias e nada havia reparado. Cerveja, vodka, sempre fazem isso, esquecer... 
O ônibus para no semáforo e meus olhos de criança caipira, buscam incessantemente as luzes e gnomos dos prédios iluminados, linda, alguém diz ao meu lado, sorrio e respondo que sim, é uma linda decoração, o rapaz diz que não se trata da decoração e mê dá uma piscadela marota. Sem jeito olho para frente e me calo, durante os solavancos sinto a presença do rapaz ao meu lado, seu braço roçando o meu, não o olho mas sei que ele está com aquele sorriso.Trânsito lento ônibus quase parado, pessoas reclamando.
Ouço um barulho e vejo um carro com papai noel parado ao lado, tocando músicas natalinas e distribuindo balas, uma tristeza profunda me arrebata. Ao lado do carro do papai noel, há um senhor, originalmente idoso, originalmente barbudo, mas seu trenó não é puxado por renas e as crianças  não correm para abraçá-lo. De cabeça baixa, olhando para o chão, joga todo seu peso para frente e lentamente arrasta sua carroça que, não está cheia de presentes e sim das embalagens vazias do nosso lixo. É um herdeiro escravo, fazendo seu trabalho escravo, para dar um pouco de arroz e feijão, como na música do teatro mágico, à sua família escrava. Os ombros calejados de chibata se retesam em um esforço enorme para desimpedir o trânsito, enquanto carros, comprados e pagos, em suaves e infinitas prestações buzinam freneticamente. Ele limpa o suor da testa e prossegue, de cabeça baixa, sempre, como que para mostrar à sociedade que ele sabe qual é o seu lugar.
Fodam-se as luzes, o natal, eu, você e principalmente o papai noel jovem, branco e bem alimentado que sorria forçosamente ao lado. Eu queria descer, eu queria gritar, gritar com todos, queria uma forma, um jeito de chamar atenção para aquilo tudo. Para... Quando foi? Quando foi que nos acostumamos a ver homem puxando carroça feito burro de carga?
Que merda é essa? 
Ao longo do restante do trajeto, a imagem daquele senhor, negro, grisalho, me acompanhou feito um fantasma, roubando minha plenitude, me pondo no coração um gosto amargo de revolta... De impotência...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Subentendido



É como um barco que parte com alguém dentro. . .

que parte . . .

É como sentir um membro que não existe, ou que pelo menos não se vê a olho nú ou mesmo trajado. Sente-se algo excitante, estimula a circulação desse órgão inexistente e o faz transbordar ilusão, escorrendo peito afora e cabeça a dentro. À noite se encharca, de dia a umidade o mantém vivo para um novo enxague noturno destes minérios, mistérios que o alimentam.

(Bruno Kalss)



Você tem medo de morrer, Noelle? Medo de nunca mais ver seus entes queridos? Você tem medo de sentir dor, a dor de saber-se só, partindo sem possibilidade de volta? O quê faria você, Noelle, se soubesse hoje seu último dia? E fosse para agora e para sempre o seu fim?

Mas você sabe, querida, que isso não é real; sabe que este sentimento nada mais é do que apego e segurança. Falsa segurança, que não te traz nada, que não te dá nada e que te esgota, te esgota... É como se hoje fosse o último dia de um grande tormento, revestido de sonhos, acrescido de açúcar, muito açúcar para disfarçar seu gosto ácido, e quente... Muito quente.

Ah, Noelle! Nestes dias tão quentes e úmidos, nestes dias tão seus. Sente só! O monstro que cresce dentro de ti levando toda sua sobriedade e equilíbrio! Sente só como é sufocante, como te empele a ser rude, a ser cruel! Você não é cruel Noelle, você é naturalmente doce, e ácida. É quente. você é naturalmente livre e sincera, você é naturalmente devassa e cálida, Noelle... Hoje você rasteja de um canto a outro tentando redescobrir seu lugar, não há. Hoje você olha ao redor o tempo todo como se buscasse alguém, não há. Hoje, Noelle, você se descobriu só, lamentavelmente só em um mundo que não é seu, e você sabe que ela está ali, logo à frente, ele também, pode doer e você terá medo. Tudo ficará para trás...Mas querida, você estará finalmente livre de algo que não é você...

Está perto Noelle, pule...Pule.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eu, nua e crua...




Hoje é só mais um dia em que despi minha máscara, que falei com quem não costumo, que me senti livre e solta e... Fodam-se todos que não gostaram, ou que me julgaram estranha, é difícil ser mãe em tempo integral, é difícil ser esposa, ser aluna, ser nora, filha, ser julgada...


Quando mais jovem sempre vivi em função do que os outros achavam certo! Ah,Falsos moralistas! Tolos. Mal sabia eu, que para ser uma boa esposa não precisava ser ingênua! Que para ser uma boa mãe não precisava ser submissa! Que para ser uma boa nora não precisava ser perfeita! Ah se eu soubesse que o mundo é muito mais do que tudo o que vocês me disseram! Ah se eu soubesse...Teria chorado menos a noite, teria feito mais amor, mais amigos, mais loucuras, teria tido menos medo de amar, menos medo de me machucar porque, Deus! Como me machuquei fingindo!


Fingindo que toda essa chama não existia.


Fingindo que todos esses desejos não eram meus.


fingindo que essa ânsia de abraçar o mundo de experimenta-lo não era minha!


fingindo que eu não queria, não gostava, que eu era igual!


Só hoje depois de tanto Oscar Wild, Herman Hesse, Milan Kundera... Só hoje depois de tanto Pessoa, de Sabino (Meu amigo literário), de tanto Raul Seixas e pessoas diversas é que eu vi que tudo o que vivi, além de absurdamente simples e normal, ainda por cima é pouco!


Desde o pai acóolatra e violento até a perda da virgindade aos 17anos! tudo simples e normal!Nada mais do que uma vida onde se tem coisas a odiar,coisas a amar, ah meu filho! E como eu te amo, coisas a viver!


Hoje sou uma mulher segura de si!


Sei quem eu sou! Acreditem ou não! Apesar de ser muitas!


Sei exatamente o que quero e aonde quero chegar...E não importa...Não importa quantas pedras existam no caminho eu as chuto, pulo, tropeço, e como pode ser prazeroso tropeçar, mas eu não paro! Eu nunca paro...Meus irmãos estão lá, onde a vida e meu pai os obrigaram a ficar e sei que olham para mim e pensam "esta aí vai longe, é obstinada! É diferente! "E eu vou meus irmãos, eu vou em frente mostrar para o nosso pai que é preciso mais do que ele para destruir nossas vidas!


Para mostrar que é preciso mais do que uma vida de limitações.


muito mais do que uma vida de frustrações e medos.


Uma vida de lágrimas!E como as conhecemos...Como as vimos nos olhos de nossa mãe, e nos nossos próprios colocando um brilho falso, onde só existia insegurança e medo...


Para mostrar a todos o quanto somos fortes, o quanto somos durões e sim ,o quanto amamos,nos amamos...Porque todos nossos demônios foram enterrados e nós seguimos em frente!


Eu não pararei!


Eu nunca pararei! jamais pararei!


Deixo de lado minha dor de antes, meus medos, minha insegurança!


Estou aqui meus irmãos! Marchando na corda bamba, sempre em frente.

Eterno monólogo


Quando mudamos para longe dos amigos e da família, o quê nos resta, guria? Resta-nos aderir a inclusão digital, e falar com pessoas que, se não são nossos amigos, ao menos não são também, inimigos, resta -nos falar sobre as coisas do dia, falar para apaziguar a alma, guria...Falar com amigos perdidos e reencontrados, falar das canções do hoje e do outrora, falar dos filmes, ruins, bons, medianos...falar por falar, falar porque a vida nos permite.
Uma brincadeirinha aqui e outra acolá. Falar porque é assim que a vida é, guria, nada de sentimentos exacerbados, nada de melhores amigos para sempre, mas porque, guria? Porque ser tão exigente? Vamos, fale! Pois quando mudamos para longe dos nossos, guria, os outros passam a ser os nossos também, ou isso ou a fala solitária, o eterno monólogo.
O diário escrito à meia luz, à meia noite,  escondido sob o colchão, este pode existir, faça-o guria, mas não te esqueças que não há mal em falar um pouquinho aqui, é como conversa entre vizinhos, você fala, eles falam, mas diga -me, guria? Quantos conhecem  a ti? Não, não precisa se mostrar, oculta-te, ou mostra- te sutilmente, deixe pistas, vestígios, armadilhas... É o que resta guria, e no mais, tens tu, não um, mas dois amigos perdidos e reencontrados, mudados sim, mas essencialmente amigos...Apazigue a alma guria e vá dormir...

Perfeição


Ela sentia saudade de quando era magra, mas tão magra que sentia vergonha de sua magreza. Sentia saudade de quando a mãe a sacudia pela manhã com um: Levanta, já são 6:20 vai atrasar! sentia saudade do frio pela manhã e das geadas frequentes durante o inverno. Sentia saudade de quando sua maior agonia era saber se o Carlinhos da quinta série, aquele de olhos verdes,  ia responder sua cartinha, o mesmo Carlinhos que pôs brinco na orelha aos 12 anos, em uma época em que os pais achavam que brinco não era coisa de cabra macho, brinco este, que a fez esquecer todas as juras de amor eterno escritas em uma cartinha nunca entregue,pois ela o achou feio de brinco.
Saudades da época em que encontrava suas amigas, ou melhor sua amiga, pois tão tímida! tão complexada! Sempre teve problemas em se relacionar, mas ainda assim ela sentia saudade, saudade de quando se encontravam depois da aula e voltavam devagarzinho para casa conversando sobre o fim do mundo, sobre a nova sandalhinha da moda que vinha com uma pulseirinha, sobre o Carlinhos que estava crescendo rápido, mudando de voz, e tinha outra namoradinha, só que desta, ele sabia que namorava. Conversavam sobre tudo, menos sobre o que mais ela precisava conversar, gritar, botar para fora, não! Isso ficaria escondido. Para que ninguém soubesse que seu mundo não era perfeito...
Ela sentia saudade da goiabada caseira,  das brincadeiras de roda, e das histórias  de fantasma contadas em meio a mata fechada que havia no quintal...Saudade de um mundo idealizado, fantasiado, perfeito...Um mundo infantil e belo para o qual, quem diria! Ela não queria voltar, não queria voltar para o aconchego dos braços maternos, pois por mais que reinventasse, por mais que sua mente fosse capaz de fantasiar, por mais que houvesse se esforçado há algo oculto neste mundo que ainda hoje a faz sangrar . Está lá, trancado, trancafiado, longe de todos, mas dentro dela ;e às vezes, em dias frios e tempestuosos, ou até mesmo em dias claro de sol a  portinha se abre, e contrariando a tudo em que ela sempre acreditou ela pode ver. Está lá, velha e empoeirada, abandonada em um cantinho escuro, lembrando-a nos dias de frio ou de calor, sobrepondo ao gosto da goiabada, ao aroma da grama em dia de geada, aos sorrisos durante as brincadeiras de roda. Está lá dura, cruel, está lá para lembrá-la de que jamais será de todo feliz. Uma lembrança, acompanhando-a como um fantasma, sempre e por onde ela for, subjugando o gosto da goiabada caseira, os sorrisos infantis, a perfeição idealizada, jamais vivida.
Olhos negros espantados...Um homem...Um grito...Uma criança para sempre meio feliz...meio perfeita.

A menina das frutas murchas



Ela era pequenina como se tivesse uns cinco anos, mas na verdade tinha oito, o tamanho diminuto se dava pela má alimentação, pelos maus tratos incutidos pela mãe, pelo pai que,  se quer, a conhecia, pela sociedade como um todo.


Voltava para casa sozinha com uma sacola de frutas murchas que conseguiu ganhar ao final da feira. Estava acostumada aos olhares de pena e desprezo que lhes lançavam quando se aproximava das barracas, estava acostumada ao "pegue isso e suma daqui!", estava acostumada ao lixo e  a sujeira que a cercavam desde sempre. Em sua tão jovem vida, já se sentia parte desse lixo, parte dessa sujeira. Estava contaminada. Se não, porque todos fugiam quando ela se aproximava? Porque todos aqueles olhares de desprezo e pena?


chegou ao pé do morro e começou a longa caminhada até seu barrraco, sabia que apanharia ao chegar em casa com frutas murchas, sua mãe sempre lhe batia por chegar com frutas dadas de mau gosto ao invés de frutas frescas surrupiadas furtivamente.


Dobrou a esquina de uma viela, cabisbaixa como sempre, da próxima vez teria que roubar, sabia disso, não haveria escapatória ou sua mãe acabaria por matá-la de tanto bater.


Com esses pensamentos em mente, nem percebeu o homem que subia correndo a rua até que passou por ela, viu o sangue que respingava da camisa dele, se encostou assustada ao muro, viu quando ele se virou e levantou a arma, mas não teve tempo de ver o outro homem que vinha no encalço deste, desesperada virou- se para correr, topou com ele bem no momento em que aquele que estava sangrando disparou...


Seus olhos se arregalaram por um segundo, ela pensou na surra que não mais levaria, e no roubo que não iria mais praticar, sorriu enquanto tombava com os olhos fechados, ao tocar o chão já não sorria mais. Estava morta.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Torpor


(Uma singela homenagem ao estranho dos meus sonhos...)


Desliga o computador e vai até o banheiro, tira a roupa, solta os cabelos...
Nada como água fria para despertá-la deste estado de constante torpor.
Frio, muito frio, lá fora a chuva cai forte,
Seu corpo todo se põe a tremer, sente-se invadida, violada em seu sentimento, em sua tranqüilidade...
Ah Noelle! Mulher tola acreditava-se tão forte, tão dona de si... Nem dona de seus pensamentos é mais. Enrola-se em uma toalha, deita-se no sofá, e deixa o vento úmido que entra pela janela acariciar seu corpo. Quanto tempo permaneceu assim? Não saberia responder.
 Despertou com passos leves e suaves, quase inaudíveis, passos de uma lembrança, um fantasma, uma inspiração... Sentiu alguma coisa crescer em seu âmago. Medo? Não, algo entre ansiedade e apreensão, não medo. Continuou deitada na mesma posição. Os passos foram se aproximando, e ela imóvel arrepiada olhando pela janela, a chuva havia parado e dava para vislumbrar algumas estrelas entre nuvens, entrelinhas, entre uma piscada e outra. De súbito os passos pararam, um ar quente percorreu suas costas, cerrou os olhos no mesmo instante em que uns dedos tocaram seu pescoço, percorreram seu rosto e pousaram em seus lábios, um hálito quente com aroma de licor, não de qualquer licor, mas um, impossível de ser encontrado. Seus músculos se retesaram, foi preciso muito esforço para abrir os olhos, tinha medo do que veria... Não viu. Ao abri-los, uma luz radiante cegou-a por alguns minutos. Céu azul, e os primeiros raios de sol aqueciam seu corpo totalmente despido da toalha...

Em algum dia...


Em algum dia, independente de como você esteja, de onde você esteja, independente do quanto você possa estar feliz, você desejará estar em outro lugar. Não importa o quão calma ande sua vida, nem se seus dias são bucólicos e seu amor correspondido, não importa se você conseguiu quase tudo que você sempre desejou, você ainda assim, desejará estar em outro lugar. Por um momento apenas... Um minuto que seja. E ao se deitar tentará reprimir seus pensamentos, tentará convencer-se de que é só um porre, de que ao amanhecer, a ressaca e a sobriedade levarão tudo embora. Rolará de um lado para o outro sentindo uma emoção tão forte e inquietante, e não saberá por que.
Neste dia talvez, você se sinta mal, se sinta vulgar, se sinta condenada. Condenada por não fugir, por não fingir, por não ser indiferente e, sobretudo, condenada por sorrir, sorrir a menor lembrança do que nunca aconteceu, sorrir com medo e com prazer sobre um copo quase vazio de tequila.
Você contestará até o menor dos seus gestos, constatará que é tarde, indagará se é de fato tão ruim, tão errado. Você dormirá pela manhã, acordará ainda pela manhã, com o peito trasbordando de ansiedade por  mais um pouco de ilusão.
Esse é o meu dia.
A ressaca não levou nada.
Nem o banho gelado.
Nem o barulho da chuva.
Nem esse sorriso aflitivo...Tolo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O ônibus

O ônibus

Um calor danado, amostra grátis do inferno, como li em algum lugar, e o ônibus quebra. Mais essa, Jesus! Chegar novamente atrasado no serviço! E patrão lá quer saber que ônibus quebra?  Nem mesmo lembra o que é pegar um circular lotado, se espremer até o fundo e ser conduzido feito gado a caminho do abate! Pelo menos os gados tomam água ao longo do trajeto.
Aproximo-me da janela tentando pegar um pouco de ar e quase sufoco com o ar quente e mal-cheiroso que vem dos bueiros, fecho os olhos desejando que não seja nada grave, que o ônibus retome o caminho, que não seja necessário pegar outro, e rezo principalmente para que o Silvinho não chegue antes de mim na repartição, assim não tomo bronca publicamente, apenas uma advertência no fim do mês e um desconto no honorário. Silvinho é chefe metido a besta, gosta de mostrar quem manda, grita por qualquer cinco minutos de trânsito lento, imagina só por meia hora de ônibus quebrado!
O jeito é descer e esperar o 45 que não me deixa tão perto da companhia quanto o 73, mas é o que se tem no momento, esperar é que não dá.
Desço em frente a um botequinho simpático, com uma bela guria no balcão, aceno, ela sorri e o ônibus quebrado liga o motor e sai como se nada tivesse acontecido, desesperado corro atrás, não pode ser! Não pode ser! Deus, é hoje que a vaca vai pro brejo! É hoje que eu sou exonerado! Mais de uma hora em ônibus lotado, um calor de matar, pessoas com todos os tipos de perfumes, ou falta deles, a camisa chega a grudar no corpo para quê? Para o maldito do ônibus quebrar a meio caminho do serviço e, depois de tanta espera, partir sem mim!
Espero, quinze minutos, vinte, meia hora e nada do 45 passar, fuço os bolsos a procura de dinheiro, um táxi me salvaria, mas não tenho mais do que o dinheiro para umas cervejas. Já em estado de pânico pergunto as horas a uma estranha, já devia estar lá há 25 minutos. Não paro de olhar a rua, todo mundo pega o seu ônibus, só o meu é que não vem, o ponto vai se esvaziando, Deus, o Silvinho deve estar me excomungando, vai me humilhar, me matar, me fazer lavar o banheiro dos operários sem luvas!
E que calor Jesus! Que calor!
Mais de uma hora, e estou consternado, sento já sem rumo e olho ao redor, a estranha ainda está ali, o seu também é o 45? Deve ter quebrado também. Não, o meu é o 23. Mas o 23 acabou de passar. Sim eu sei, te vi aqui sozinho há um bom tempo e esperei que puxasse papo, eu trabalho ali olha!
Me virei e vi o simpático botequinho, só que dessa vez sem o convidativo sorriso da balconista. Já farto desse dia de gado sem água, mandei o 73 e o 45 irem à merda assim como o afetado e irritadiço Silvinho e lancei à bela guria meu melhor sorriso de homem cansado e honesto. Quer tomar uma cerveja?