Olho para minha sala... Um colchão de casal no chão com alguns bichos de pelúcia, uma revista de assuntos fúteis e uma criança de 2 anos adormecida, ao lado, também no chão, uma lata vazia de cerveja que caiu há uns 10 minutos e, não, eu não corri para pegar, há um par de sandálias femininas marrom, um parzinho de sandalinhas infantis também marrom mas com duas tirinhas azuis e há o lugar vazio onde, há 20 minutos, havia um chinelo masculino tamanho 39, pretos, que foram calçados e estão, neste momento, no mercado a procura de leite para a criança que dorme no colchão, mas que acordará em breve e se o leite não estiver aqui o condomínio inteiro conhecerá a força de seus pulmões jovens e potentes... O telefone está tocando... Não é ninguém...Volto para este texto, texto? Do que falava mesmo? Ah sim de minha sala bagunçada, mas já não lembro o objetivo, sempre escrevo com um objetivo. Um amigo me chama no bate papo, como sempre quando estou de saída, mas para falar a verdade, sempre que entro estou de saída, estou sempre de saída para alguma coisa fabulosa alguma coisa mágica, como ir ao mercado, por exemplo, ou preparar o almoço, ou, como hoje, assistir a segunda parte de "Os pilares da terra", antes que passe das dez, porque a lei de silêncio do prédio diz que a tv tem que estar baixa após às dez, e sem ouvir direito não tem graça. Sempre estou de saída e sempre continuo, atraso, perco o primeiro capítulo. Ainda bem que não vejo novela... Ah, o objetivo foi esquecido, não sei porque descrever a bagunça da minha sala, que nem é tanta, algumas coisas fora do lugar, uma lata que jogarei no lixo, separada dos demais para me enganar, não há coleta seletiva, vão misturar tudo mesmo, mas separar faz com que eu me sinta bem, oras! Que porcaria... Deixe estar, deixe para lá, é só um belo dia em que acordei na minha casa, ouvi o barulho do mar respirei a brisa salgada e úmida e escrevi sobre coisas bestas dessa minha vida besta onde estou sempre de saída...Ah e o objetivo, a constatação de liberdade que só um lugar que você pode chamar de casa te dá, e acreditem, é a primeira vez que que me sinto tão livre para não arrumar, deixar para depois, não pirar com uma lata vazia caída no chão, ou com um colchão de casal fora da cama, fora do quarto, perfeitamente colocado onde devia estar... Ah agora deixe-me dizer um oi a quem tem se mostrado tão bom amigo e me preparar para minha sessão de filmes... Boa noite adoráveis estranhos, boa noite família.