quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A independência

Sete de setembro.
Naquela época significava muito mais que um feriado. Significava um dia cheio de carinho, sexo, e muita preguiça. Significava que ela dormiria na casa dele, e que beberiam vinho barato madrugada a fora, talvez jogassem truco e suas gargalhadas encheriam a sala, o quintal, o mundo todo! Da mais pura alegria.
Talvez, mas apenas talvez, aquela tenha sido a única fase plena da vida dela, sem fios soltos, sem lágrimas internas. A fase do esquecimento de tudo que era miserável, que era doloroso... E, tola, pensou que poderia prolongar aquele riso para o resto da vida...
Não saberia dizer quando tudo começou a desmoronar, não se lembrava da primeira grosseria, que com o tempo, veio a se tornar rotina, não se lembrava do primeiro palavrão.
Veio antes ou depois do primeiro filho?
Não saberia  dizer quando foi que lágrimas se tornaram frequentes e que, talvez por isso, passaram a ser apenas lágrimas, sem qualquer relevância. Ela não saberia dizer...
Um dia apenas acordou em um lugar estranho e ele estava lá, não ao seu lado, mas lá, entretido em uma empresa qualquer, curvado em frente ao computador, estava diferente, seu rosto, antes  tímido, de um anjo que ela carinhosamente chamava de seu, agora era apenas um rosto como outro qualquer, severo, duro, inflexível, nada havia sobrado do belo sorriso cativante. Ela esboçou um bom dia que ele respondeu no mesmo tom modorrento de sempre, entre dentes, de boca fechada. Ela não sabia como nem porque, mas deveria ir para cozinha antes de  qualquer coisa, e cuidar do que havia por lá, não se lembrava o motivo, mas tinha que fazê-lo, antes que o fizesse porém, um choro de criança a chamou de volta. De volta à realidade, era a sua criança, sua... Sua, apenas. Como um bebê inseminado, decantado, adotado... Retirado à força e sem porque do útero materno. Ela levou as mãos à barriga e recordou-se dos movimentos, das cantigas, e de toda dor que a prendia àquele lugar. Ele levantou em passos lentos, fez um copo de 500 ml de achocolatado, semi nu e desgrenhado voltou a se entreter com uma futilidade qualquer.
Então, observando-o, ela soube.
Soube, não pelos seus gestos, mas pela total falta deles, que o que quer que havia acontecido em um setembro longínquo, o que quer que os havia colocado naquela casa e com aquela criança no berço, o que quer que fosse, há muito havia acabado. Ela sentiu uma dor lancinante, sentiu saudade, sentiu raiva, sentiu vontade de fugir, mas quando olhou bem para aquela cozinha, percebeu que estava longe, muito longe de casa e que não tinha absolutamente nenhum lugar para aonde fugir com uma criança nos braços. Ela passou novamente por ele que nem deu conta do fato, pegou um balde de roupas, limpas? E a pretexto de colocá-las no varal subiu a escada.
Lá, sentada sobre um fogão à lenha velho, e com os olhos presos em um muro de tijolos vermelhos, soluçou como se o mundo fosse acabar e implorou para que alguém viesse em seu socorro, antes que fosse tarde... Ninguém veio.
Catarina, ouvindo o choro da criança no andar de baixo, lançou-se de cabeça em direção ao som, mas azarada como era, não morreu de todo...


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Limo

Eu consigo ver rostos felizes no limo do muro.
Dragões, automóveis, e até um cachorrinho. O João Pedro foi quem viu o cachorrinho primeiro, depois juntos, descobrimos tudo isso e muito mais.

O tapete verde escuro, formado pela umidade, é macio e serve como pasto ao cavalinho vermelho, e também como campo de futebol, ou de concentração aos soldadinhos azuis, íamos colocar a pequena cerca de arame farpado ao redor, mas achamos que poderia caracterizar invasão de terra, apropriação inadequada, deixamos os soldados azuis livres com suas baionetas em punho.

Vamos criar um oásis? 
A palmeira laranja não para em pé, apoiamos com pedrinhas. É inútil não tem raízes, vai morrer. A água do cocho é infinita, feita com plástico azul e amanhã depois da chuva de ilusão, vamos plantar um feijãozinho mágico, que foi trocado por dinheiro, em embalagem vazia de petít suísse para acabar com a fome mundial.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Uma cena



 Da vida comumente mágica que levo ao seu ladinho, meu xamego, meu nirvaninha...

 Embora seu amor desinteressado esteja indo embora, eu te amo tanto que até dói.

-Mamãe, ocê, ocê, ocê, ocê  me ama?
-Sim, meu amor.
-Muitão gandão?
-Muito, muito, muito, bem grande do tamanho do céu.
-Do céu não, mamãe, tá escúio, tamanho da, da, da... Da panhede, do teto. E uma mãozinha gordinha, com  o mindinho torto, por puro capricho da genética, se levanta.
-Tudo bem então, filho, te amo do tamanho da parede e do teto.
-Ocê faz mamadeia chocoiate e mucilon, pa Dudú?
-Faço, meu amor.
Uma mãe preguiçosa que levanta às duas da manhã, seguida de um par de perninhas gordinhas com uma pinta preta na coxa direita, também, por puro capricho da genética.

Materna II



Estranho é gostar tanto do seu all star azul... Não, estranho, é gostar tanto dos seus pés descalços, enlameados, denunciantes da infância plena, dos seus quase três aninhos...








Estranho, é chegar no sítio em Pedro de Toledo, e te esquecer em rodas de pessoas, em andanças pela chuva, em pinturas abstratas no chão da varanda... Estranho é gostar tanto das suas artes, do talco espalhado pelo chão da sala, dos riscos e rabiscos na parede do corredor.


Estranho, é marcar sua altura na parede e olhar para ela como se fosse uma extensão do seu corpinho quando você não está aqui, mas sim em um lugar distante aproveitando ao máximo o fato de ter bisavós, tias-avós, primas-tias, primas somente, de primeiro, de segundo... de quarto grau, todos dispostos a se encantar com sua visão de mundo, que é seu, que é meu, e que está marcado na parede aqui ao meu lado. 

Uma altura, uma data, uma extensão de você. Estranho é buscar canais e, automaticamente, parar no Quintal da Cultura e, ainda que de forma inconsciente, cantarolar a música tema da Dora. Estranho é cheirar sua camisetinha caída atrás do sofá e sorrir com saudades ao constatar um cheirinho meio doce, meio azedo, de criança suada, e suja de suco de manga. Estranho é não gostar tanto deste silêncio, desta paz forçada que é a distância do meu baterista preferido...

Amor, mamãe está com saudades, quando você voltar, vamos deitar no sofá e conversar coisas espetaculares, vamos inventar histórias e cantar o tema de abertura de Dora, vamos desenhar paredes e portas e brincar de esconde-esconde, vamos apagar a luz pegar uma lanterna e brincar com a sombra até adormecer...

Volta logo meu guri, antes que este silêncio tome conta da minha alma.

Uma poesia

Uma nota
musical
de saudade
com cobertura de terra e de capim
com pé de ameixa do mato
uma nota
um nove sempre não estudado
antes
muito antes
uma nota
um seis
sempre em matemática
uma nota
licorosa
barata
amarga de cerveja
verde como a bílis
emulsificante
uma nota
um 5,30
lágrimas, não por tudo
por nada, disponha e vá-te
aparta daqui está tristeza.
Ei ainda me lembro o que é Ágar...

Materna

Minhas mãos estão calejadas, e é de ficar pendurada feito uma macaquinha em transporte público. Pensei em escrever uma crônica sobre isso, mas vou deixar para outro dia... 
Minhas costas estão cansadas, de dormir no chão há mais de um ano, também já pensei em escrever um conto sobre isso,mas novamente deixarei para outro dia.

Os meus pés estão esfolados, ardentes dentro do sapato, pensei em escrever... Mas pelo menos o meu sapato é bonito.

minha cabeça está doendo, com o balanço do ônibus, as perguntas incessantes, os pedidos, gritos insistentes, enquanto tento concluir um trabalho, três livros e começar um relatório de... Bem mais de 25 páginas. Pensei em escrever um desabafo, mas vou deixar. Vou deixar. Vou deixar para outro dia.
Minha alma está doendo, de cansaço e de abandono, pensei em escrever um poema, poético como ela anda, mas vou deixar para outro dia.
Se não fosse meu coração forte, cheio de amor por seus olhinhos, eu não teria esta capacidade, adquirida ao longo de três anos duros e mágicos, de deixar o meu corpo, fugir de mim mesma e ainda dar bom dia. Pensei em escrever uma declaração para você, mas vou deixar para outro dia, porque agora pitico, agora eu vou brincar de esconde-esconde para esquecer as dores desta vida.

Etérea


Eu falo brincando, suspiro alto, brinco de sonhar, finjo e acabo sonhando. Eu me reafirmo e não tenho dúvidas. Eu reinvento o mundo e as condições. Coloco cor na cena; vermelho, é claro. Eu ligo pontos e não vejo sentido e de meu, não sinto nada, absolutamente nada em meu pensamento. Eu ouço músicas que contam outras histórias, e finjo minhas as que acaso são suas. Eu, no fundo, sou careta, insinuando-me sutilmente em uma dança erótica, me desfaço de pré-conceitos e não concebo nada de novo, de fato. Eu me denuncio na escrita, em versos e prosas me desfaço. Levanto bandeiras e manuseio baionetas, mas novo, no fundo, não concebo nada.

Brinco de ser mulher adulta, experiente e muito sabida, pretensa, sou no fundo acrílica e se me aquece eu me estrago, mas ainda não entendi direito, de onde vem toda esta ânsia de de repente não querer ser mais nada, nada além de uma tela restaurada, e quando a vejo, estática, não sei ao certo apesar do nada, etérea eu ainda tremo. Idiotizada.