E quando se dão conta, já está tudo quebrado, e por mais que façam por consertar, porque fazem, tudo ainda continua torto, desgastado, hemorrágico. Então caminham ao redor um do outro, perto o suficiente para não perder nenhum detalhe que, talvez tenha passado despercebido em tempos passados, perto o suficiente para observar se os olhos chovem ou se fazem sol, mas distante o bastante para não se esbarrarem pelos corredores, sentam-se no mesmo sofá e comem na mesma mesa, dormem no mesmo quarto e se tocam individualmente com estas mãos que, já foram para o outro, se tocam, mas não se sentem... Não se percebem, nem ao menos um sibilar no escuro, um gemido, um suspiro... Porque já não estão mais ali, não há ninguém, não há nada, estão perdidos em algum lugar do passado, enroscando-se em muros adormecidos, suspirando em miseráveis casebres sem portas e sem janelas, tingidos à cal. Estão perdidos em rodas barulhentas de jogos e álcool, em um limiar etílico e egoísta entre a felicidade plena e o volúvel prazer com o suor. Estão apenas em seus quartos, silenciosos, juntos e sozinhos, descobrindo o sentido pleno da palavra desespero. E o medo que os assola é o medo escarlate, da vergonha, da mentira, da sedução... O medo de que esta hemorragia não pare, esta hemorragia universal, este rio de pés sangrentos que carregam tanta imundície e tanta história, medo de uns calcanhares repletos de cacos, da cerveja vazia, do champanhe vazio, da tequila vazia, da vodka meio cheia, medo de alguns anos fraturados.
Medo de umas queimaduras pelo cigarro nunca compartilhado, medo real, medo ao estilo de Kafka, que foge as raias da lucidez, um medo desvairado... No limiar de casebres miseráveis e apartamentos preenchidos ao som do mar, no limiar de incensos e luzes de vela em um dia de semana qualquer. Medo de não gostar dos filmes mudos em preto e branco que ela tanto ama ou de não acompanhar com o devido interesse o livro surreal, psicodélico e parcialmente político.
O medo de não disfarçar o desagrado com as séries de tv que ele assiste por horas a fio, de não acompanhar com o devido interesse suas pretensões futuras em seu grupo social fechado. O medo do desconhecido, daquilo tudo que não sabiam , que nunca se deram conta. Como? Porquê?
O medo das perguntas mais ingênuas, e das respostas mais, brilhantes, maldosas, maliciosas... Este medo que foi trancado por tempos, esquecido no porão, de repente em um sábado qualquer, toma de assalto todos os gestos tímidos e desesperados, gestos perdidos, gestos impulsivos e biológicos, uma necessidade de suar, de sangrar, de sussurrar no escuro uma palavra qualquer diferente de amor, uma palavra que os leve a um ponto novo, a um ponto inédito, inabitável, virgem. Um casebre miserável qualquer, sem portas nem janelas, preenchidos com a luz do luar ou do sol, testemunhas de olhos chuvosos... testemunhas de parceiros nus, solitariamente entrelaçados, à margem da vida comum.