O ônibus
Um calor danado, amostra grátis do inferno, como li em algum lugar, e o ônibus quebra. Mais essa, Jesus! Chegar novamente atrasado no serviço! E patrão lá quer saber que ônibus quebra? Nem mesmo lembra o que é pegar um circular lotado, se espremer até o fundo e ser conduzido feito gado a caminho do abate! Pelo menos os gados tomam água ao longo do trajeto.
Aproximo-me da janela tentando pegar um pouco de ar e quase sufoco com o ar quente e mal-cheiroso que vem dos bueiros, fecho os olhos desejando que não seja nada grave, que o ônibus retome o caminho, que não seja necessário pegar outro, e rezo principalmente para que o Silvinho não chegue antes de mim na repartição, assim não tomo bronca publicamente, apenas uma advertência no fim do mês e um desconto no honorário. Silvinho é chefe metido a besta, gosta de mostrar quem manda, grita por qualquer cinco minutos de trânsito lento, imagina só por meia hora de ônibus quebrado!
O jeito é descer e esperar o 45 que não me deixa tão perto da companhia quanto o 73, mas é o que se tem no momento, esperar é que não dá.
Desço em frente a um botequinho simpático, com uma bela guria no balcão, aceno, ela sorri e o ônibus quebrado liga o motor e sai como se nada tivesse acontecido, desesperado corro atrás, não pode ser! Não pode ser! Deus, é hoje que a vaca vai pro brejo! É hoje que eu sou exonerado! Mais de uma hora em ônibus lotado, um calor de matar, pessoas com todos os tipos de perfumes, ou falta deles, a camisa chega a grudar no corpo para quê? Para o maldito do ônibus quebrar a meio caminho do serviço e, depois de tanta espera, partir sem mim!
Espero, quinze minutos, vinte, meia hora e nada do 45 passar, fuço os bolsos a procura de dinheiro, um táxi me salvaria, mas não tenho mais do que o dinheiro para umas cervejas. Já em estado de pânico pergunto as horas a uma estranha, já devia estar lá há 25 minutos. Não paro de olhar a rua, todo mundo pega o seu ônibus, só o meu é que não vem, o ponto vai se esvaziando, Deus, o Silvinho deve estar me excomungando, vai me humilhar, me matar, me fazer lavar o banheiro dos operários sem luvas!
E que calor Jesus! Que calor!
Mais de uma hora, e estou consternado, sento já sem rumo e olho ao redor, a estranha ainda está ali, o seu também é o 45? Deve ter quebrado também. Não, o meu é o 23. Mas o 23 acabou de passar. Sim eu sei, te vi aqui sozinho há um bom tempo e esperei que puxasse papo, eu trabalho ali olha!
Me virei e vi o simpático botequinho, só que dessa vez sem o convidativo sorriso da balconista. Já farto desse dia de gado sem água, mandei o 73 e o 45 irem à merda assim como o afetado e irritadiço Silvinho e lancei à bela guria meu melhor sorriso de homem cansado e honesto. Quer tomar uma cerveja?