Ela sentia saudade de quando era magra, mas tão magra que sentia vergonha de sua magreza. Sentia saudade de quando a mãe a sacudia pela manhã com um: Levanta, já são 6:20 vai atrasar! sentia saudade do frio pela manhã e das geadas frequentes durante o inverno. Sentia saudade de quando sua maior agonia era saber se o Carlinhos da quinta série, aquele de olhos verdes, ia responder sua cartinha, o mesmo Carlinhos que pôs brinco na orelha aos 12 anos, em uma época em que os pais achavam que brinco não era coisa de cabra macho, brinco este, que a fez esquecer todas as juras de amor eterno escritas em uma cartinha nunca entregue,pois ela o achou feio de brinco.
Saudades da época em que encontrava suas amigas, ou melhor sua amiga, pois tão tímida! tão complexada! Sempre teve problemas em se relacionar, mas ainda assim ela sentia saudade, saudade de quando se encontravam depois da aula e voltavam devagarzinho para casa conversando sobre o fim do mundo, sobre a nova sandalhinha da moda que vinha com uma pulseirinha, sobre o Carlinhos que estava crescendo rápido, mudando de voz, e tinha outra namoradinha, só que desta, ele sabia que namorava. Conversavam sobre tudo, menos sobre o que mais ela precisava conversar, gritar, botar para fora, não! Isso ficaria escondido. Para que ninguém soubesse que seu mundo não era perfeito...
Ela sentia saudade da goiabada caseira, das brincadeiras de roda, e das histórias de fantasma contadas em meio a mata fechada que havia no quintal...Saudade de um mundo idealizado, fantasiado, perfeito...Um mundo infantil e belo para o qual, quem diria! Ela não queria voltar, não queria voltar para o aconchego dos braços maternos, pois por mais que reinventasse, por mais que sua mente fosse capaz de fantasiar, por mais que houvesse se esforçado há algo oculto neste mundo que ainda hoje a faz sangrar . Está lá, trancado, trancafiado, longe de todos, mas dentro dela ;e às vezes, em dias frios e tempestuosos, ou até mesmo em dias claro de sol a portinha se abre, e contrariando a tudo em que ela sempre acreditou ela pode ver. Está lá, velha e empoeirada, abandonada em um cantinho escuro, lembrando-a nos dias de frio ou de calor, sobrepondo ao gosto da goiabada, ao aroma da grama em dia de geada, aos sorrisos durante as brincadeiras de roda. Está lá dura, cruel, está lá para lembrá-la de que jamais será de todo feliz. Uma lembrança, acompanhando-a como um fantasma, sempre e por onde ela for, subjugando o gosto da goiabada caseira, os sorrisos infantis, a perfeição idealizada, jamais vivida.
Olhos negros espantados...Um homem...Um grito...Uma criança para sempre meio feliz...meio perfeita.
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