sexta-feira, 13 de abril de 2012

Uma carta: duas palavras e um nome

Ela observa o caderno em suas mãos, por um instante pensa em desistir. Escrever o quê? Há tanto tempo não faz isso, há tanto tempo... Seria capaz? Arrisca-se em uma caligrafia instável e confusa, duas palavras. Meu querido, ponto. Como continuar? Do quarto chega o som de um violão desafinado e uma voz totalmente contrária, So... so you think you can tell, haven from hell... Blue skies from pain... Mais um dia, em que pessoas morreram e outras tantas nasceram, mais um dia em que alguém chorou, não, isso nada tem a ver contigo, se bem que a canção, é tão triste e é tão você. Um nome, meu querido... as desculpas pela rispidez, pelo jeito meio indiferente, meio arrogante, e umas palavras que sobem e não saem, umas palavras tão cândidas, uma descrição de todo sentimento que lhe vai na alma, em branco. três palavras, my dear e um nome, as mãos trêmulas a entornar mais um copo de tequila, o líquido a escorrer-lhe pelo queixo, esvaída de toda inspiração, drenada de toda manifestação de sentimento, justo ela que já sentiu tudo, que já gostou de sentir de tudo, as portas... The doors, todas as percepções atenuadas pela tequila, ela já sentiu o sangue subir as faces, escorrer pelo braço, ela já sentiu o hálito e o toque de um fantasma de um personagem, ela sentiu tudo e agora incapaz de escrever uma carta, uma desculpa por toda a rispidez, pensa em pergaminhos e pena de ganso, pensa na dificuldade relacionada a esta ação em tempos passados, pensa em todo o cinza envolvido no passado, no cheiro da solidão, no cheiro da pretensão, And did they get you to trade your heroes for ghosts... O tom da música havia subido de um suspiro triste e melancólico, para uma agonia gritante. E ela continuava a segurar o caderno, não em branco, meu querido e um nome... 

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